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A obra comemorativa agora apresentada a público com o título “D. Catarina de Bragança e o Paço da Rainha” resulta da iniciativa executiva da Academia Militar, com a colaboração e patrocínio da Câmara Municipal de Lisboa, Fundação Casa de Bragança, Fundação D. Manuel II e do Banco Santander Totta, em coordenar um grupo de jovens historiadores com o intuito de sublinhar a memória histórica de D. Catarina de Bragança e os laços desta já secular Instituição à veneranda rainha de Inglaterra e uma das filhas mais ilustres de Portugal. Além das análises científicas, as pequenas estórias que aqui se contam constituem um sugestivo indicador da sociedade portuguesa e inglesa de então, nomeadamente no notório choque de valores culturais que implicavam um complexo confronto entre duas nações aliadas de séculos.
A tónica fundamentalmente experimental desta obra comemorativa centrou-se numa personagem única como D. Catarina de Bragança, assim como na iniciativa de estabelecer novos patamares de reflexão particulares, tidos em conta os riscos que comporta escrever esboços histórico-biográficos. A presente tentativa em torno das temáticas histórico-culturais que envolvem a ambiência e o legado de D. Catarina de Bragança desenvolveram-se em cinco patamares diferentes de análise na presente obra, a saber.
Em primeira instância, no capítulo intitulado «D. Catarina de Bragança e a projecção da sua imagem nas fontes históricas impressas dos séculos XVII e XVIII» e da autoria de Eurico Gomes Dias, tentou-se compreender os discursos historiográficos em torno da monarca homenageada. Focando toda a recolha possível de documentação impressa existente entre os meados dos séculos XVII e XVIII e dispondo-a de forma antológica, teceram-se comentários aos registos impressos referentes a D. Catarina de Bragança de forma a fornecerem-se novas adendas sobre a projecção da sua imagem histórica pelos autores, seus contemporâneos. Nesta contribuição, refere-se o significado das percepções literárias aos acontecimentos marcantes da vida de D. Catarina de Bragança, com destaque para os autores portugueses e as suas relações com as esferas políticas e intelectuais, assim como os sistemas de valores propagandísticos em concorrência no que toca à promoção contemporânea da figura da monarca.
Segue-se, em segunda instância, o capítulo referente à «Resenha histórica, artística e arquitectónica do palácio da Bemposta e suas dependências urbanísticas», da autoria de Diana Gonçalves dos Santos. Como é sobejamente sabido, a Academia Militar tem a sua sede no palácio da Bemposta, sendo também conhecido este como o Paço da Rainha. Focando especificamente uma análise pormenorizada ao património do palácio da Bemposta, assim como às descrições da capela, é aqui descrita uma actualização dos dados históricos e patrimoniais referentes a toda ambiência arquitectónica que envolveu o palácio até à sua ocupação pela Escola do Exército e a actual Academia Militar. Discorre-se, portanto, sobre as composições artísticas existentes no palácio da Bemposta, no que respeita às concepções arquitectónicas e às suas mudanças e reformulações ao longo dos tempos, assim como as representações pictóricas deste conjunto monumental no contexto urbanístico de Lisboa.
Chegados a uma terceira instância com o capítulo «D. Catarina de Bragança, uma princesa portuguesa na Corte dos Stuarts», da autoria de M.ª Lúcia Afonso. Aqui foi tentada uma subtil interpretação histórica sobre a figura e a mentalidade de D. Catarina de Bragança numa descrição repleta de analogias entre diversos autores que se referiram à monarca de modos tanta vez distintos e em diferentes e extremas caracterizações sociais, culturais, simbólicas e intelectuais. Foi a preocupação em discernir o «lado humano» de D. Catarina de Bragança e da sua figura histórica, de acordo com os relatos e bibliografias disponíveis, que norteou a preocupação básica desta particular reflexão. Procedeu-se a toda uma possível interpretação da personalidade de D. Catarina de Bragança, o que implicou uma reconstituição e uma nova análise hierárquica das representações escritas sobre a monarca e a sua difícil e conflituosa inserção na Corte dos Stuarts, assim como a atribulada relação matrimonial com Carlos II de Inglaterra. Através deste trabalho é possível avaliar as percepções de diferentes autores sobre as imagens de D. Catarina de Bragança, em função das conveniências políticas em debate e de que forma se pode permitir um anacrónico realismo.
Num quarto patamar ou instância, o capítulo apontado como «D. Catarina de Bragança, Rainha de Portugal e diplomata portuguesa», da autoria de M.ª Odete Ramos, constitui um exemplo modelar da inscrição de D. Catarina de Bragança no seu tempo e peça fundamental da estratégia diplomática portuguesa no quadro político europeu da segunda metade do século XVII. A figura fundamental desta particular análise, além das referências à monarca homenageada, é o diplomata português D. Francisco de Melo e Torres, o principal responsável pelo sucesso das conversações entre Portugal e Inglaterra, o que muito contribuiu para o feliz culminar do nosso processo da Restauração. São as grandes linhas mestras das iniciativas políticas entre dois países que aqui são revistas e novamente apontadas sobre o prisma da figura de D. Catarina de Bragança.
Por fim, em último capítulo, apresenta-se o trabalho «Confrontos bélicos durante a regência de Catarina de Bragança: a fronteira do Alentejo e da Beira em 1704 e 1705», da autoria de Armando de Sousa Pereira. A escala de análise norteia-se, no seu texto, para uma visão global dos preparativos e iniciativas militares estabelecidos ao início da participação portuguesa na Guerra da Sucessão de Espanha, tentando-se reconstituir uma imagem do que teriam sido esses anos e de que forma D. Catarina de Bragança terá tido influência, ainda que diminuta, nesses acontecimentos. Correspondendo a um tempo histórico diminuto, D. Catarina de Bragança assumiu a regência do governo de Portugal a partir do seu palácio da Bemposta durante alguns meses nos anos de 1704-1705, findo o qual morre. As movimentações militares dos inícios da Guerra da Sucessão de Espanha foram aqui esboçados como um dos casos mais característicos de uma sociedade cristalizada e estagnada nas suas hierarquias, tão próprias do Ancien Régime cada vez mais sujeita ao papel regulador do Rei/Estado, e as suas tentativas de promover a imagem de um reino forte em termos militares e romper com a imagem do marasmo português de então.
A ordem dos capítulos desta obra e o modo pelo qual se apresentam as diferentes contribuições aqui reunidas, opções sempre discutíveis, pretendeu criar a ideia de uma hierarquia de níveis ou de estruturas existentes na realidade, independentemente das ausências factuais de que resulta essa mesma selecção de quadros, delimitando o tratamento de outros importantes temas.
Um dos objectivos desta obra consistiu em repensar, a uma escala de análise nacional, embora focando problemáticas de origem ibérica e europeia, um conjunto de esboços mentais e historicistas interessados em discorrer como a figura histórica de D. Catarina de Bragança reflecte os processos de mudança da sociedade portuguesa entre meados do século XVII e inícios do século XVIII. Tentou-se, portanto, conceber uma obra global em que a personagem de D. Catarina de Bragança fosse, simultaneamente, um ponto de partida e um ponto de chegada para explicar todo um ciclo espelhado na História de Portugal, tomando como fundamentos basilares as principais etapas da sua vida para se explicar outros acontecimentos marcantes das relações entre Portugal e Inglaterra.
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